Recados de Dia do Professor
Eduardo Queiroga
"No sertão, a gente fala muito e foi justamente desse falatório todo que tirei inspiração para os meus livros"
ENTREVISTA
Todo professor deve ter um pouco de ator
Aos 80 anos, comemorados no dia 16 de junho, o romancista, dramaturgo e poeta Ariano Suassuna,
está cheio de planos. Em janeiro, ele assumiu a Secretaria da Cultura de Pernambuco - seu terceiro
cargo público -, prometendo continuar na defesa da cultura popular brasileira, que apóia como poucos.
O escritor e secretário de Cultura de Pernambuco conta como aprendeu a ler e
se apaixonou por literatura e diz porque nunca deixou os alunos entediados em
32 anos de magistério
Dessa vez, Ariano se empenha para colocar em prática o projeto batizado de A Onça
Malhada, a Favela e o Arraial. Trata-se de uma iniciativa que vai levar para os
quatro cantos do estado (das periferias das cidades aos rincões do sertão) suas
célebres aulas-espetáculo, palestras que há anos fascinam os brasileiros. Se
o escritor já lota os auditórios por onde passa, agora ele pretende convidar o povo
simples, "do Brasil real", para o escutar embaixo de uma lona de circo, acompanhado
de bailarinos e músicos. "Sou um pouco ator, como todo professor deve ser", justifica
o "pai" de Chicó e João Grilo, personagens de sua mais célebre obra, o Auto da
Compadecida.
Malhada, a Favela e o Arraial. Trata-se de uma iniciativa que vai levar para os
quatro cantos do estado (das periferias das cidades aos rincões do sertão) suas
célebres aulas-espetáculo, palestras que há anos fascinam os brasileiros. Se
o escritor já lota os auditórios por onde passa, agora ele pretende convidar o povo
simples, "do Brasil real", para o escutar embaixo de uma lona de circo, acompanhado
de bailarinos e músicos. "Sou um pouco ator, como todo professor deve ser", justifica
o "pai" de Chicó e João Grilo, personagens de sua mais célebre obra, o Auto da
Compadecida.
Formado em direito e filosofia, ele lecionou durante 32 anos na Universidade
Federal de Pernambuco. Em 1999, assumiu a cadeira de número 32 da Academia
Brasileira de Letras e, em 2002, foi homenageado pela escola de samba carioca
Império Serrano. "Não vi diferença entre as duas honrarias", afirma. Nesta entrevista,
concedida à NOVA ESCOLA no seu casarão do século 19, localizado às margens
do rio Capiberibe, no Recife, o criador de histórias como O Santo e A Porca, entre
tantas outras que têm o Nordeste como inspiração, fala como se tornou um grande
leitor e escritor, comenta a situação da Educação brasileira e diz quais são as
estratégias que usa para dar boas aulas desde os 17 anos.
Federal de Pernambuco. Em 1999, assumiu a cadeira de número 32 da Academia
Brasileira de Letras e, em 2002, foi homenageado pela escola de samba carioca
Império Serrano. "Não vi diferença entre as duas honrarias", afirma. Nesta entrevista,
concedida à NOVA ESCOLA no seu casarão do século 19, localizado às margens
do rio Capiberibe, no Recife, o criador de histórias como O Santo e A Porca, entre
tantas outras que têm o Nordeste como inspiração, fala como se tornou um grande
leitor e escritor, comenta a situação da Educação brasileira e diz quais são as
estratégias que usa para dar boas aulas desde os 17 anos.
NOVA ESCOLA: Com quantos anos o senhor aprendeu a ler?Suassuna: Antes de
entrar para a escola, aos 7 anos, orientado pela minha mãe e por uma tia, lá no sertão
de Taperoá, na Paraíba. Hoje isso é muito raro, pois as mulheres têm de trabalhar fora,
não é?
entrar para a escola, aos 7 anos, orientado pela minha mãe e por uma tia, lá no sertão
de Taperoá, na Paraíba. Hoje isso é muito raro, pois as mulheres têm de trabalhar fora,
não é?
O hábito da leitura vem dessa mesma época?
Eu não tenho o hábito da leitura. Eu tenho a paixão da leitura. O livro sempre
foi para mim uma fonte de encantamento. Eu leio com prazer, leio com alegria.
O meu pai, que perdi aos 3 anos de idade, deixou de herança para nós uma
biblioteca fabulosa para os padrões do sertão naquela época. Tinha de tudo.
Ibsen, Dostoiévski, Cervantes, Machado de Assis, Euclides da Cunha. Meus
tios também viviam comprando livros em Campina Grande para eu ler.
Era Eça de Queiroz, Guerra Junqueira e um título do qual me lembro muito,
Dodinho, de José Lins do Rego.
foi para mim uma fonte de encantamento. Eu leio com prazer, leio com alegria.
O meu pai, que perdi aos 3 anos de idade, deixou de herança para nós uma
biblioteca fabulosa para os padrões do sertão naquela época. Tinha de tudo.
Ibsen, Dostoiévski, Cervantes, Machado de Assis, Euclides da Cunha. Meus
tios também viviam comprando livros em Campina Grande para eu ler.
Era Eça de Queiroz, Guerra Junqueira e um título do qual me lembro muito,
Dodinho, de José Lins do Rego.
Como começou a escrever?
Certo dia, eu tive uma prova de Geografia e não sabia nada. Então, resolvi dar
as respostas por meio de versos. O professor quis saber quem era aquele aluno
e, em vez de me dar uma bronca, me elogiou. Dias depois, ele deu um jeito de
publicar no Jornal do Commercio, aqui, do Recife, um de meus poemas
que havia mostrado a ele. Em 1947, eu e outro colega fundamos o Teatro do
Estudante de Pernambuco, que encenava peças de nossa autoria. Nesse mesmo
ano, escrevi Uma Mulher Vestida de Sol e não parei mais.
as respostas por meio de versos. O professor quis saber quem era aquele aluno
e, em vez de me dar uma bronca, me elogiou. Dias depois, ele deu um jeito de
publicar no Jornal do Commercio, aqui, do Recife, um de meus poemas
que havia mostrado a ele. Em 1947, eu e outro colega fundamos o Teatro do
Estudante de Pernambuco, que encenava peças de nossa autoria. Nesse mesmo
ano, escrevi Uma Mulher Vestida de Sol e não parei mais.
No que está trabalhando agora?
Estou concluindo o Romance d'A Pedra do Reino, lançado em 1971. Estou
devendo isso aos meus leitores desde 1981.
devendo isso aos meus leitores desde 1981.
O senhor usa o computador para escrever?
Jamais! Escrevo tudo a mão. Minha letra é muito bonita. Acho que a única
função do computador foi aposentar as máquinas de datilografia, que já usei um
dia. O meu genro é quem lê os originais e depois passa para o computador.
função do computador foi aposentar as máquinas de datilografia, que já usei um
dia. O meu genro é quem lê os originais e depois passa para o computador.
A popularização de sua obra literária se deve muito à TV. Como ela pode se tornar
um aliado do professor no fomento à paixão pela leitura?
um aliado do professor no fomento à paixão pela leitura?
A TV é um meio de comunicação no qual a oralidade predomina. Se o professor
escolher boas adaptações, como a que Guel Arraes fez de O Coronel e o Lobisomem,
do meu amigo José Cândido de Carvalho, exibir para os alunos e depois facilitar o
acesso ao livro, eu duvido que eles não se interessem.
escolher boas adaptações, como a que Guel Arraes fez de O Coronel e o Lobisomem,
do meu amigo José Cândido de Carvalho, exibir para os alunos e depois facilitar o
acesso ao livro, eu duvido que eles não se interessem.
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