domingo, 5 de setembro de 2010

FORMAÇÃO DE VALORES "Investir, acreditar, implantar".

“Falar de valores como respeito é bom, mas será inócuo se aquele que fala não pratica.”

MAIS PROFESSOR

Ensinando a viver
Karine Rodrigues

De repente, no meio da aula, algum aluno se levantava e, sem pedir licença, toma para si o material escolar do colega. A cena se repete muitas vezes, assim como as agressões verbais e os episódios de bullying. Esta situação, vivida pela professora de Português Eloisa Menezes Pereira, de Porto Alegre (RS), acontece com frequencia em escolas de todo o País. Então, para reverter esta realidade e contribuir para a construção de uma sociedade com pessoas “de bem”, muitos professores estão incluindo em seus planos de aula atividades relacionadas à relevância do respeito e da solidariedade. Segundo os docentes, a iniciativa traz benefícios para o ensino.

Para tentar mudar o clima em sala, Eloisa pensou em uma maneira divertida e instigante de ensinar para a garotada a importância da prática desses dois valores. Ela propôs um desafio à Turma 53 da 5ª série da Escola Estadual de Ensino Fundamental Almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva: produzir um livro sobre os cinco sentidos, tema que ajudaria o grupo a refletir sobre as atitudes negativas repetidas dia após dia em sala de aula. Eles toparam a ideia e, em menos de quatro meses, não apenas finalizaram a publicação, lançada no fim do ano passado, mas conseguiram construir um ambiente mais harmonioso na classe. “Era uma turma que apresentava muitos problemas. Então, pensei em trabalhar os sentidos, para que eles se conscientizassem que a mão, por exemplo, não é para bater no colega da frente”, conta a educadora, ressaltando que a melhor maneira de introduzir a discussão sobre valores dentro escola é partir da história de vida de cada aluno, assim como do ambiente em que vivem.

Neste caso, os 28 integrantes da turma, com idades entre 11 e 14 anos, moram na periferia da cidade, na Vila Cruzeiro, área carente da capital, marcada por diversos problemas sociais, inclusive a violência. Não à toa, nos textos e desenhos produzidos pelos alunos para o livro “Brincando com os sentidos” (e-book lançado pela editora Plus), há relatos sobre pessoas solitárias que encontraram a felicidade a partir de um carinho ou de um olhar amoroso. “O aluno é muito acessível e, com raríssimas exceções, novos olhares poderão ser trabalhados em sala para desenvolver os valores”, observa Eloisa.

Respeito é bom e todo mundo gosta

A opinião da professora de Porto Alegre encontra eco a mais de 4 mil quilômetros de distância, em Fortaleza (CE). Lá, o professor de História Paulo Sérgio Barros, da Escola Estadual de Ensino Médio e Fundamental Maria José Medeiros, lança mão de várias estratégias para formar pessoas de bem. “Tudo conectado com a subjetividade, o currículo e as práticas socioculturais dos estudantes”, detalha. No ano passado, por exemplo, durante as comemorações dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ele propôs aos seus 105 alunos da 8ª série que elaborassem uma carta de princípios própria.

Paulo alerta para o fato de que, seja qual for a maneira escolhida para discutir o assunto na aula, é fundamental que o professor seja exemplo para a turma. “Falar de valores como respeito é bom, mas será inócuo se aquele que fala não pratica.” Ele também acredita que, embora o assunto precise ser trabalhado em sala e de uma forma cotidiana e consistente, a educação de valores deve, na verdade, começar em casa, ainda que vários pais se mostrem despreparados para isso. “Muitas crianças chegam à escola com comportamentos lamentáveis. E quando conversamos com a família ficamos sabendo das condições sociais e morais em que eles nasceram e vivem.”

Por outro lado, Paulo também vê falhas na atuação das instituições de ensino. “Poucos gestores e professores estão comprometidos com uma educação holística, humanitária”, critica o professor, resumindo que a responsabilidade de formar pessoas de bem é, na verdade, de todos – família, escola e da sociedade de uma maneira geral.

O docente ainda é responsável, no Norte e Nordeste, pelo Programa Vivendo Valores na Educação (VIVE) – iniciativa coordenada pela Alive, associação presente em mais de 80 países com o objetivo de propagar valores humanos e estímulos ao desenvolvimento espiritual e profissional de seus integrantes. No Brasil, o programa é desenvolvido pelo Instituto Vivendo Valores (www.vivendovalores.org.br). “Há manuais para os três níveis de ensino (infantil, fundamental e médio), com atividades que levam em consideração a idade física e intelectual dos alunos. Já realizamos cursos e oficinas em mais de uma centena de escolas”, detalha Paulo, que ajudou a organizar o livro Educação e valores humanos (Editora Brahma Kumaris), com práticas e pesquisas desenvolvidas em várias partes do País, por professores que participam do VIVE.

Calendário das Virtudes

Responsabilidade compartilhada, mas com a escola na liderança. Quem pensa assim é a jornalista Renata Ventura, idealizadora do Calendário das Virtudes, um jogo virtual que foi lançado no fim de dezembro e já possui mais de uma centena de seguidores. Para entrar no jogo, basta acessar o site (www.calendariodasvirtudes.ning.com) e fazer o login. Com isso, o usuário se torna um membro e ganha uma página pessoal, como no Orkut.
Os professores podem encontrar no Calendário das Virtudes uma maneira divertida de inserir o tema em sala de aula. “É um jogo pessoal e coletivo ao mesmo tempo, mas não é uma competição entre os participantes. Na verdade, o ‘adversário’ é a própria pessoa, que precisa vencer a si mesma para ganhar no jogo – e na vida”, ensina Renata, lembrando que o caráter coletivo vem do espaço reservado para o blog pessoal dos jogadores, onde há compartilhamento de frustrações, vitórias e aprendizados.

Renata sugere que os professores também participem e que a pontuação seja mantida em segredo. Além disso, propõe que os alunos façam um diário e que, ao fim do mês, escrevam uma redação anônima contando sobre uma das experiências vivenciadas, para que o assunto seja discutido em sala. “Quando se trata de reformar a educação, as pessoas sempre enfatizam a falta de professores ou como o brasileiro não sabe escrever direito. Nunca pensam no aspecto moral. De que adianta termos brasileiros intelectualmente brilhantes, se não temos brasileiros de bem?”, questiona.

Outras estratégias

Para os professores que já desenvolvem atividades relacionadas à educação de valores, ou mesmo para quem deseja começar agora, mais sugestões não faltam. Eloisa, por exemplo, propõe que o docente liste e comente atitudes de desrespeito menos triviais, criando regras em colaboração com a turma e expondo o resultado da discussão em cartazes afixados na classe. Em relação à solidariedade, ela cita abordar o assunto estimulando o empréstimo de material, a ajuda aos colegas em dificuldades e a cooperação na limpeza da sala.

Já Paulo Sérgio enumera uma série de atividades que podem ser realizadas ao longo do ano e que poderão gerar mudanças no comportamento dos alunos: oficinas, pesquisas, campanhas, projetos e técnicas de relaxamento. Ele, por exemplo, detectou uma melhor convivência dos estudantes com a diversidade e mais respeito (a si próprio e pelo outro). Além disso, a disciplina em sala também melhorou. “Eles escutam melhor o professor e sabem apreciar o que o colega diz.”

Eloisa também sentiu uma melhora no comportamento dos alunos, com a redução dos casos de bullying, e observa que, independentemente dos resultados no caso dos alunos mais velhos, que já trazem hábitos negativos arraigados, é preciso “investir, acreditar, implantar”. Paulo tem pensamento semelhante. Para ele, seja qual for o nível de ensino, é essencial que a formação de valores passe, principalmente, pelo incentivo ao respeito.

Reportagem divulgada na revista Profissão Mestre de abril de 2010.

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